A ordem da desordem silenciosa



A ordem permanece a mesma. Som irritante original do meu telefone, derrubo o estojo do meu aparelho no chão antes de colocá-lo, me irrito com as persianas sujas e emperradas, o sol adentra meu pequeno cantinho, água, fogo, folhas, um chá de camomila é meu produto final e assim se inicia uma manhã tardia. Queimo a língua enquanto abro a rede social, descubro quem engravidou na quarentena, penso em copiar os tutoriais de maquiagem, baixo aplicativos desnecessários, salvo fotos para me inspirar e me inscrevo em minicursos variados e semanas grátis que talvez a metade não conclua. O vapor do chá parece agradável e sublime, abro a câmera traseira do smartphone, tiro 17 fotos, o número está ímpar, tiro mais uma, 18 fotos em que utilizarei apenas uma. Pego o bloquinho de frases na cômoda, escrevo o que colocarei na legenda, frase 24, “a cura do mundo está próxima, camomile-se”, postado. O chá permanece na mesa em que o fotografei, esfriando enquanto olho “o vazio” do outro lado da sala, intitulei a pintura da parede assim.


Há quantos dias estou assim? Quase três meses. A parede quase não possui mais espaços para “rabiscos” e picos de criatividade. A cada vazio que sinto nessa quarentena, coloco uma música que gosto e faço algo nela de acordo com que estou sentindo. Mas nem concluí a de ontem, os pincéis ainda estão largados no chão sobre os jornais velhos, ao lado de algumas telas pequenas. Eu poderia continuar hoje...poderia. Cinco minutos se passaram enquanto observo uma figura estranha e incompleta na parede. Eu estava tentando fazer asas? Aquilo são borboletas ou corvos?


O celular toca, “amor” ligando, “talvez eu fique por aqui de novo”, “eu te amo”, “eu também te amo, mal posso esperar para que tudo isso acabe”, a ligação cai. Sou noiva de um herói, que mora do outro lado do país, em tempos de covid isso se torna uma luta constante contra o medo e a saudade. A casa? É cheia...era. Ela sempre se senta na poltrona em que acabei de me jogar, lembranças invadem minha mente, como será que minha amiga está? Será que quando tudo isso acabar eu e Estrela vamos poder juntar todos de novo? Minhas mãos estão suando.


Precisei ficar sozinha aqui temporariamente, nada de visitas ao meio dia, um café feito por minha mãe ou a sopa maravilhosa dela quando fico resfriada. Há muitos meses não escuto “Amiga pelo amor de Deus olha a mensagem que ele me mandou”, não recebo pães de queijo e minha torta preferida com um pedido fofo escrito “posso assistir filme com vocês hoje?”, não vejo aquela turma reunida de novo, torço fervorosamente para que no fim estejamos todos bem. “Ele está internado” foi dito a mim por telefone, me apoiei no balcão em que está o bule de chá agora. Estrela e eu pensamos que íamos perder nosso parceiro de filmes e eu pensei que ia perder o meu melhor amigo, choramos semanas, desejamos e pedimos a melhora dele, demos as mãos mesmo com quilômetros e quilômetros nos distanciando.


“Oi...posso ver filme com vocês?”, ouvi aquela voz cansada depois de muito tempo, “é um inferno”, “por favor não sai de casa sem necessidade”, “fala pro seu noivo se cuidar naquele trabalho dele”, “eu tô feliz de saber que você está bem”, “eu vou me recuperar”, “preciso ir”, ele desligou o telefone. Eu fiquei tranquila, aliviada, feliz, grata...no entanto, triste e em luto por outros que não tiveram a mesma chance, a cada dia que ligo a televisão e vejo os números subindo esse sentimento cresce ainda mais. Essas perdas vão deixar um vazio no coração dos familiares, amigos, pessoas que os amavam...nunca será preenchido.


Gritos do apartamento ao lado do meu me assustam, coloco a xícara de chá novamente na mesinha de vidro, espera...em que momento tomei o chá? Saio tropeçando nos meus sapatos no meio da sala, grudo o ouvido na porta, “que se dane a droga da máscara”, “use essas focinheiras você”, “liberdade de expressão”, todo dia isso? É a minha vizinha do lado, a mesma que quando vim morar por aqui vivia me denunciado por achar que eu e minha amiga éramos lésbicas.


A gritaria cessa, coloco a xícara suja na pia, faço carinho no meu gato, não estou tão sozinha quanto penso. Fecho as persianas, abro a janela, prédios enormes, ruas vazias porém limpas. A angústia de novo, ela não sai em lágrimas, nem em gritos...ela é sútil mas está ali. Respondo um e-mail do trabalho, outro da faculdade, tenho uma reunião no meet mais tarde, saio da poltrona e me deito no sofá, jogo o celular nas almofadas que estão no tapete. Uma notificação chega, apanho o celular, “nunca mais vi foto sua sorrindo”, “tem gente achando que você começou a ficar daquele jeito de novo”, “posta algo, dá sinal de que tá bem ou viva”. Ler esse tipo de coisa me faz ter vontade de ir pra cama e só acordar quando tudo acabar. Levanto, pego a bolsa de maquiagens, uma escova de cabelo e começo a formar as máscaras. O espelho me diz o quanto preciso cuidar só do necessário hoje, mas isso é um sinônimo de improdutividade para o mundo virtual que devo satisfações insatisfatórias quase sempre.


É...a ordem continua a mesma.


Texto: Kezia Feitosa Freitas

Kezia é colaboradora no Café com Pimenta, Colunista da Revista, Produtora de conteúdos e Escritora nas horas vagas.

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